quarta-feira, 20 de junho de 2007

Um debate que permitiu perceber quem tem um rumo e uma equipa para Lisboa

Do debate com sete dos doze candidatos à Câmara Municipal de Lisboa, que a SIC Notícias organizou ontem à noite, no Museu de Electricidade, ficou pouco patente o projecto de cidade que a maioria dos candidatos tem Lisboa. Nalguns casos, foi possível perceber que não há projecto, apenas um conjunto de propostas pouco estruturadas e algumas sem sentido de exequibilidade.
Muitas das propostas apresentadas, em resposta às questões da jornalista, eram mais expostas por reacção do que por um princípio de pró-acção. Se há algo que Lisboa precisa não é de reacção, mas de planeamento e estratégia, de rigor.
Dos sete candidatos, o que mais apresentou um conjunto, pouco pensado, de propostas, quase todas elas avulsas, foi o do PPD. Propostas pouco pensadas e avulsas, porque tanto se lhe dava que se mantivesse o aeroporto da Portela e surgisse outro em Sintra ou em Alcochete (como se este assunto merecesse por parte de um candidato à presidência uma abordagem demasiado ligeira), como a concepção apresentada de uma Baixa Pombalina como Centro Comercial, onde se construiria parques automóveis, no sentido, disse o candidato, de chamar mais pessoas à Baixa.
À questão da jornalista, onde poderia o candidato do PPD construir os parques de estacionamento na Baixa, o candidato falou em construir silos. Porém, neste ponto, nada mais adiantou, porque, em abono da verdade, nada mais poderia dizer, tal o desfasamento da proposta, de mais parques de estacionamento (que atraem mais carros). Aliás, a proposta peca, desde logo, pelo erro de conceber a Baixa da cidade como um Centro Comercial. A Baixa tem uma função e uma condição muito mais abrangente do que a visão da Baixa Centro Comercial. Mesmo quem conhece pouco Lisboa, sabe que na Baixa há muito mais do que lojas. Há serviços, há Poder Central, há espaços Históricos e Culturais, restauração, e todos estes precisam de ser conjugados, pensados num todo em que se complementam, não se amontoam nem são simples somatórios. Ficou bem patente a fragilidade da candidatura do PPD, mais apostada em fazer desta eleição um momento de críticas ao Governo, do que em apresentar propostas para o futuro da cidade.
Quem também se ficou pela postura de criticar o Governo do país em vez de apresentar a sua visão da cidade foi o candidato do PCP. Em quase todas as intervenções, o candidato comunista mais parecia estar num debate de uma eleição legislativa do que autárquica.
Já o candidato do BE foi fiel a si mesmo e empregou o princípio que lhe é característico: contra e nada fazer. Pouco se espera, e pouco apresentou de propostas construtivas, excepto, claro está, as que há muito o seu apoiante, Gonçalo Ribeiro Telles, defende para Lisboa e que o candidato bloquista assume em nome do arquitecto paisagista.
Se do candidato do PPD pouco se viu de congruente, à direita, o outro candidato, do CDS, e o que corre mais riscos de não ser eleito, apresentou algumas propostas mais estruturas e algumas arrojadas, como a defesa da privatização do sector de recolha de resíduos, além de ter destacado uma tecla cara ao seu partido, a da Segurança (pôde-se escrutinar ao candidato do CDS algumas propostas de influência da política de Giulianni em Nova Iorque). No entanto, e para quem deu o exemplo do Governo de direita da capital espanhola, em termos de privatização do sector do lixo, o candidato do CDS devia ter em consideração a boa política do PP (espanhol) em Madrid, em termos de salas de injecção assistida. Foi um Governo, nacional e local, de direita, que assumiu o projecto das salas de injecção assistida em Espanha e com resultados francamente positivos, no combate e prevenção das toxicodependências. É pena que o CDS faça de uma intervenção fundamental, em termos de Saúde e Segurança Públicas, um assunto tabu.
Dos candidatos ditos independentes, duas visões: a do paraíso e a do caos. Um, o ex-alcaide, parece que ainda não percebeu porque há, neste momento, uma eleição intercalar em Lisboa. Foi a sua (des)governação e falta de liderança que conduziram Lisboa à situação em que está. Por outro lado, a leviandade com que fala da dívida da Câmara, superior a mil milhões de euros, e com a qual o antigo Presidente não se mostra muito preocupado, é admirável. Parece que dívidas e dívidas não o preocupam. A outra candidata dita independente, apresenta um conjunto de propostas avulsas. Curioso no seu comportamento, por não ter uma visão estratégica para a cidade, é o procurar disfarçar a sua falta de visão global com a proposta recorrentemente referida: juntamo-nos todos e, em reuniões, logo se vê o que escolhemos. Ora, Lisboa precisa de um projecto de futuro, que esteja traçado, que seja conhecido e possa ser cumprido, para que no final destes dois anos se saiba se foi cumprido ou não.
A estratégia e metas devem estar definidas à priori, e os lisboetas devem conhecer, para poder escolher qual o rumo que querem para a cidade. A candidata dita independente procura ser eleita para depois procurar traçar o seu rumo, mediante o soprar dos ventos. Ou seja, em vez de planeamento tem uma actuação de fazer tudo em cima do joelho. Este tipo de política já é conhecida de Lisboa e deu no resultado que deu nestes últimos anos. Falta de projecto, de estratégia, de rumo. A Câmara paralisou-se e paralisou a cidade.
Quanto ao candidato do PS, este teve tempo de apresentar um conjunto de propostas e medidas concretas, devidamente pensadas e estruturadas, e que quer implementar, tendo em conta o rumo que já apresentou aos lisboetas. Uma acção a curto, médio e longo prazo.
Penso que o momento chave do debate de duas horas, e que permitiu perceber quem tem um projecto e uma equipa para governar, foi a questão do urbanismo. A jornalista perguntou a vários candidatos quem iria tutelar a área e António Costa deixou claro que, além das propostas para a área que apresentou com total clareza, tem uma equipa, e, na área do urbanismo o responsável, caso o PS venha a merecer a confiança dos lisboetas, será Manuel Salgado. Não caindo na posição de alguns candidatos que parece tudo querer avocar a si, como se o Presidente da Câmara fosse o único capaz de inverter o declínio actual, sem precisar de mais ninguém. Pela lógica de alguns candidatos, eles ficariam com todos os pelouros, pois o descalabro nas mais diversas áreas é notório. Ora, um Presidente de Câmara nem pode avocar tudo a si, como precisa de um governo, com pessoas experientes e qualificadas. Lisboa precisa de um rumo e um conjunto de pessoas.
Neste sentido, o debate de ontem foi exemplar quanto ao que não se quer do futuro Executivo municipal, um espaço de puro entrave à execução de um programa.
À Câmara exige-se execução, à Assembleia fiscalização. Se elegermos uma Câmara para esta ser fiscalizadora se si própria, continuaremos a ter uma cidade parada.
O PS tem demonstrado que é a única candidatura com um projecto para a cidade e uma equipa para governar. Não é por acaso que o PS é o único que apresentou o programa e a equipa de governação, mais nenhuma candidatura o fez. E já estamos a poucos dias das eleições. É um sinal e distinção bem evidentes, da candidatura do PS em relação às demais.

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